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7 de out. de 2012

Eram carinhos que nos definiam



Amor leucêmico, mas ainda amor. Sua doença estava o impedindo das coisas mais belas e simples que ele tanto gostava de fazer com sua idade jovial, não tinha mais forças para jogar basquete dedicando pontos para mim, sua única vontade era de dormir e eu pedia que ele ficasse acordado, que fosse para aula e sentasse ao meu lado como de costume, pois assim eu poderia vê-lo. Segundo ele dormindo era melhor, descansava seu corpo e mente, seu coração se acalmava e fazia projetar minha imagem em seus sonhos, eram melhores por acontecer o que ele queria. Sumiam todos, saíamos da sala de aula ou pátio e aparecíamos em um parque, deitados em cima de uma toalha de piquenique, xadrez vermelha e branca. Éramos só nós, o que nunca acontecia.

Sua doença o pegou e não queria mais soltá-lo, quase não deixava espaço para mim. Tirava suas forças, alegrias e esperanças. Só não me tirava dele, de modo algum. Havia prometido isso a ele. Permaneci ali. Mesmo com saúde fraca o via melhor que nunca, ela nos uniu de tal forma impossível de descrever, o via abatido após suas idas ao médico, seus medicamentos eram fortes demais. Mas fortes mesmo eram os sorrisos que eu tirava dele após segundos olhando seus olhos, a imensa vontade de o querer bem, a tentativa fracassada de ganhar dele no basquete, ele uma montanha e eu uma tampinha de comparação. Por ser mais velha o mimava, mesmo ele sendo mais alto, eram carinhos definindo o quanto meu coração batia por ele, eram carinhos definindo o quanto minhas mãos suavam e o fôlego faltava diante dele. Eram carinhos, era amizade, era paixão que se tornaram amor sem deixar o que antes foram. Eram carinhos que nos definiam.

Semanas após a sua volta á escola deitou-se em meu colo de cabeça baixa, involuntariamente minhas mãos começaram a mexer em sua cabeça agora quase que sem fios de cabelo que fazia cócegas nas pontas dos meus dedos. Me questionou se poderia ter filhos saudáveis mesmo com tudo o que estava passando, dessa forma o silêncio se findou a nossa volta. Eu já havia me questionado sobre isso inúmeras vezes desde quando fiquei sabendo de tudo, questionei aos meus padrinhos por trabalharem na área da saúde, mas como eu era diferente das meninas da minha escola preferia cachorros á filhos juro que não me recordo da conversa que tive. Abaixei-me até seu ouvido e disse: Podemos ter cachorros grandes, peludos e brincalhões, o que acha? Ele nunca esperaria uma resposta-pergunta dessa naquele momento, é claro. Levantou-se com os olhos cheios de lágrimas, me abraçou moldando-se em meu corpo e disse: Ou podemos ter cachorros pequenos, quase que sem pêlos e sonolentos, pode ser? Riu, um riso acanhado e totalmente envergonhado, uma lágrima escorreu de seus olhos e outra dos meus, abraçamo-nos novamente, abraço era o carinho que mais nos definia, éramos incapazes de um selinho ao menos, era como se voltássemos décadas atrás, deixando a vergonha e o respeito tomarem conta de nossas atitudes. O sinal do intervalo tocou, mas queríamos permanecer ali abraçados, sentindo o bater do coração do outro, mas não podíamos. Levantamos e ele segurando minha cintura deu um beijo em minha testa e me guiou até o pátio.

Amor leucêmico, amor esse que curou e nos renovou, como fênix o fez ressurgir das cinzas quando mais ninguém tinha fé em sua cura. Ergo a cabeça aos céus e agradeço por tudo forte, fraco e firme que passamos juntos, tempestades á deriva e tardes de sol deitados na beira da piscina. Tudo que finalmente nos levou ao amor em cima da toalha xadrez vermelha e branca no meio do parque. Amor, meu amor. Fomos ao pet shop escolher nossos cachorros grandes, peludos, sonolentos e brincalhões. Eram carinhos que nos definiam um do outro. Fizemos amor, afirmando e sentindo-o.


Nota da autora: Um dos textos que mais me emocionou sem sombra de dúvida, é sentir um aperto no peito por medo e alívio ao mesmo tempo. Após viver isto o que mais peço em minha vida é saúde, porque os espaços vazios de nossas vidas aos poucos preenchemos quando merecermos.

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