Desde o primeiro dia sabia bem o que queria da vida. Ela era valentona, mandona, forte, sensível, independente. Ela era o que todas sonhavam ser um dia. Ela era tudo. Era. Até o conhecer. Nunca foi de se apegar assim tão fácil como as meninas de hoje, um "oi" hoje e um "eu te amo" amanhã. Guardava para ela suas palavras de maior importância. Melhor que qualquer uma sabia ouvir, melhor que falar. Viu naquele rapaz algo que nunca havia visto em qualquer outro. Ela sempre foi admirada e facilmente encantada aos olhos de todos. Mas não aos dele, passou despercebida inúmeras vezes ao seu lado, quase que tropeçando um no outro e nada. Justo ela, a cereja do bolo, o sol do meio dia, a primeira estrela no céu, o ponto de exclamação de toda redação.
Ela era a canção que todos não se cansavam de ouvir e que ele não fazia questão nem mesmo de ter em sua play list. Era ela o arco-íris ao fim de cada chuva, que ele se negava a ver para não ofuscar seus olhos. Era ela muito doce, doce que ele rejeitava fortemente por ser diabético. Ela era futebol, torcida, Pacaembu, Corinthians! Ele era basquete, torcida rival, rua. Ela era calor que ele esfriava. Ela ouvia pagode - Nuwance, Pixote. Ele era rap - Rashid, Pollo. Ela era palavras, uma cachoeira de palavras, ele era silêncio, um mar de silêncio. Ela era rosa pink, ele era pretinho básico. Ela era soma e multiplicação, ele mal era subtração. Ela era quase perfeita, ele muito longe disto estava. Assim se mantinha por escolha própria, por gosto e apego.
Ela era exatamente o que ele nunca se quer havia pensado para sua vida. Mas nem assim o destino fez com que eles não se trombassem entre tropeços aqui e ali. Ela determinada, mesmo sem acreditar que logo por ele fora se interessar, investiu! Mulher quando quer, investe armamento pesado.
Sabia que não seria fácil, o que tornava a investida ainda mais interessante. Coisas fáceis não lhe interessavam o difícil a encantava. Via nele o risco certo a se correr. Por maiores que fossem as investidas, por mais exatas que fossem as jogadas e por mais encantadores fossem seus olhares, em nada o mexiam. Em nada o despertavam. Mal sabia ele o que estava para perder. Mulher quando não quer, não quer mesmo! Ela queria uma vida de bom dia com beijinho e carinho.
Ele queria uma noite com pegação e gemidos. Ela queria amor - assim já sentia. Ele queria curtição - assim desejava o mais rápido possível. Ela cega por paixão, ele enxergando as outras em sua volta - com roupas mais curtas e putas. Ela apostava em um definitivamente para ganhar. Ele apostava em todas, a que ganhasse aquela noite seria lucro. O bolo havia ficado sem cereja e o ponto de exclamação havia se tornado o de interrogação. Havia ela retirado de sua vida as reticências, sem espaço para vírgulas, querendo apenas um ponto final. Sem um próximo parágrafo.
Desistiu. Cansou. Parou. Não por ver que não conseguiria, muito pelo contrário, ela já não queria ganhar. Afinal, ganhar o que? Em nada acrescentaria. Tentava ela entender como havia tanto saído do caminho certo. Ela era muito, mas eu estou falando de muito mesmo sabe? Ele não tinha cacife para bancar a sua aposta. Passaria pelo o que fosse preciso para desapegar, deixar ir, ir e fluir naturalmente.
Afinal, aquela nunca havia sido cobra para se rastejar, não seria por ele que ela faria isso, convenhamos. Por ele ou por qualquer outro. Era distinta, leonina. Sabia ela que em algum momento no futuro, talvez próximo sofreria, pois bem, no futuro.
No presente optou ela a voltar a ser o que sempre foi, o que nunca devia ter deixado de ser. Força, sensibilidade, segurança e determinação. Carregava ela assim. E se não rolar química, é retido ficando em apenas mais uma história. Por se tratar dele, ela já havia concluído seus estudos, recebendo seu diploma de "muita areia para qualquer caminhãozinho".

Que lindo esse texto, ficou perfeito mesmo... Você escreve muito bem, parabéns...
ResponderExcluirhttp://sigaoseusonho.blogspot.com.br/
Muito obrigada linda!
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