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1 de abr. de 2012

Engano




Já passava das 4 horas da madrugada de um sábado. Vou descrever o cenário:

Um quarto escuro, como iluminação apenas a luz de um aquário no canto de uma das paredes. Em cima da mesinha de centro inúmeras garrafas de bebidas – todas vazias. Cinzeiros espalhados e caídos com bitucas de cigarros. A cama desarrumada, com várias fotos sobre ela -  grande parte delas rasgadas, eram todas de um casal jovem, bonito, apaixonado e feliz. Ao fundo uma música baixa e suave. Ao chão um rapaz, mais sonolento que acordado, sustentado pelo efeito do álcool. Em sua cabeça passavam inúmeros pensamentos e ao mesmo tempo nenhum. Ao seu lado estava o celular, onde viu em sua agenda o único contato que importava, ainda nomeado como “meu amor” – poderia ser nomeado aquele contato como qualquer outro, menos como seu amor. Sem pensar duas vezes – sem nem ao menos pensar uma vez ele ligou para ela. Por questão do horário demorou para atender e quando isso aconteceu mal se escutou sua voz.

- Alô?

- Oi, sou eu. Não desligue. Não fale nada, apenas me escute, por favor. Eu lembro muito bem quais foram as suas últimas palavras para mim, o quanto você gritava me dizendo para não lhe procurar nunca mais, não importasse o motivo. Mas eu não consegui me segurar, parece ser mais forte que eu. Na madrugada me sinto um fraco – não mais do que naquela noite que brigamos e você se foi, que eu não a segurei em meus braços.  Na madrugada meus pensamentos me levam até você – malditos pensamentos. Levam-me a você e aquele seu vestido vermelho que eu tanto gosto. Lembro-me dos nossos planos. Chegaria apressado do serviço para te ver, te jogaria no sofá e namoraríamos ali mesmo, nos amaríamos. Iríamos “brincar” na cozinha, você sem saber cozinhar muito bem e eu completamente atrapalhado, faríamos uma bagunça que no fim não sairia nada, teríamos que comer um clássico miojo ou pedir algo no restaurante perto de casa. Nos finais de semana iríamos viajar sempre, não importava para onde.  Para a casa de praia da sua família ou para a de campo da minha. Sempre que possível eu daria uma fugidinha do serviço e passaria no seu consultório para lhe dar um ramo de flores para a sua surpresa – você quando fica surpresa tem seu sorriso lindo encantado mais dez mil vezes, me deixando todo bobo (risos). Aos domingos iria preparar o café da manhã para você e o levaria até a cama, te acordaria com um beijo na testa e te chamando de meu amor...
Você está aí? Está ouvindo? (risos) Que bobeira a minha, a ligação ainda está contando, escuto sua respiração, você ainda está aí (risos). Mas então... Nós queríamos nos casar na primavera, nossa estação preferida, foi quando nos conhecemos. Nossa cerimônia estaria repleta de flores amarelas – as nossas preferidas. Teríamos dois filhos, uma menina e um menino. Nossa casa seria grande, com um belo jardim para os nossos filhos e nosso cachorro brincarem. Pegaríamos sexta-feira como nosso dia, sairíamos para dançar e depois jantar em seu restaurante favorito – aquele que eu teria pedido sua mão em casamento. Estava tudo certinho não estava? Estava sim. Agora não mais. Agora apenas na minha cabeça, em meus sonhos. Eu sei que errei, errei demais com você meu amor. Isso me causou muitas dores, imagino em você, isso me dói mais ainda. Desculpe-me por tamanha burrice, por incompetência de minha parte por não ter te feito feliz como merecia, como eu havia lhe prometido. Desculpe-me. Envergonho-me disto. Meus olhos se enchem de lágrimas, mas não as derramo mais, me sinto seco de tanto que já chorei. Eu tinha em minhas mãos a maior felicidade do mundo, por bobeira a deixei escapar por entre os dedos. Eu te quero de volta, quero minha felicidade de volta. Quero que os pássaros voltem a voar. Quero as cores do arco-íris de volta. Quero que o mar volte a ser salgado e a cachoeira doce. Quero o azul do céu de volta. Quero volume nas músicas. Eu quero o meu amor de volta. Volta?

Ouve-se  um espirro do outro lado da linha (atchim!)

- Está doente meu amor? Está bem? O que houve?

- Não estou doente. Estou muito bem. Apenas tenho alergia a mentiras. Aqui é o atual namorado dela. A minha pequena está dormindo, quer deixar algum recado?

Fim da ligação.

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