— Alguém disse que não voltaria a ouvir essa música nunca mais, lembra? (risos fracos e bravos)
— Lembro Zé, lembro.
— E por que escuta a essa hora da madrugada?
— Tornei escutá-la por tornar a lembrar dele, de mim, de nós, do que fomos... Hoje o vi. Está ainda mais bonito Zé - diz ela com um sorriso inocente e um olhar safado. O meu carro foi inventar de quebrar justo em uma rua de paralelepípedo largo cinza chumbo, por mais atrasada que eu estivesse fui olhar pela janela e vi algumas crianças correndo e gritando, o 'líder do bando' era ele. Era ele Zé! Sempre teve muito jeito com criança, o contrário de mim. Embaixo daquele sol escaldante eu permaneci no carro olhando para ele, a cada raio daquele sol que me esquentava mais eu lembrava de um sorriso que ele havia me tirado, o bico que fazia após cada briga, a sunga azul com listra branca de lado que ele odiava, mas usava porque eu havia lhe dado de amigo secreto. Do primeiro show que fomos juntos e eu sem saber uma frase se quer da música que tocava alto e ele pulava de euforia, me olhando feito adolescente apaixonado, do tipo que largaria tudo por uma noite de amor comigo. Aquela noite valeu por todo constrangimento que passei em não ser fã, estar com uma roupa inadequada para o evento e passar horas de pé. Valeu por aquele olhar que afirmava o quanto eu era dele e ele meu. A maneira que minhas mãos se encaixavam tão bem na dele e o quanto eu suspirava diante de seu pescoço por conta daquele perfume que levemente me embebedava. Não consegui evitar, não consegui permanecer longe. Abri a porta do carro e fui até ele, tendo esperança de que ele me olhasse e notasse que ainda o amo. Um amor ferido, carente e esfriado, mas que com um bom banho de espuma, uma xícara de café e ele novamente em minha cama com lençóis novos ficaria curado, cheio de carinhos e quente. Olhou, talvez tenha notado, mas não fez nada além de ficar acanhado diante do sol forte. Olha Zé, nesse lance de surpreender eu venho me surpreendendo de uma maneira incrível. Virei-me, passei pelo carro e liguei para o meu seguro. Por mais que eu ainda o ame eu abri mão desse relacionamento, fui soltando dedo a dedo antes de tirar a minha aliança - que ainda a guardo dentro de uma caixinha roxa com desenhos de estrelas douradas, por tamanha beleza e sentimento. Ainda me questiono se fiz certo quando o deixei ir e mais ainda, quando não soltei um "eu te amo" da minha boca para a dele e seus ouvidos naquela rua de paralelepípedo cinza chumbo...
— Ás vezes, o amor dura, mas, ás vezes em vez disso ele machuca. O amor de vocês durou o quanto tinha que durar, nem a mais ou a menos, o tanto certo. E doeu o tanto que tinha para doer não foi? Então chega! Por mais que agora você se questione mil vezes no fundo sabe de todas as respostas, estão elas ai dentro. Basta se acalmar que com o tempo elas vêm até você. Fez certo em deixá-lo ir, pois ele foi porque quis, sabendo do amor que você sente. Não soltou um eu te amo porque não havia necessidade alguma, ele já deve estar enjoado de ouvir isso de você, mesmo depois de tanto tempo, basta olhar para os seus olhos grandes e doces feito jabuticabas. Assim como você ele está em outra, encontrou uma garota do tamanho certo para ele, de sonhos que cabem em sua cama e bolso. Os seus mal se organizam e cabem em você, não iriam cobrar isto dele ora… Novamente você o deixou dar aquela passeada no seu coração como tantas outras vezes fez e sinceramente, acho que ainda irá fazer, mas que faça na hora certa, ligando o pisca alerta e diante da faixa certa.
— Talvez eu precisasse encontrá-lo mais uma única vez, matar um pouquinho da saudade que estava para me matar. Agora chega! O deixo dentro daquela caixinha roxa e vou para o mundo, já durou o que tinha que durar, mais ainda, já doeu o que tinha que doer e veja só Zé, já curou!
Às vezes, o amor dura
Mas, às vezes em vez disso ele machuca.
— Adele
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